Museu de Street Art de Salvador leva novas cores à comunidade do Solar do Unhão

                                                                                                                                                                 Foto: Amanda Julieta
Por Amanda Julieta

O velho pensamento de que museu é aquele lugar chato e elitista vem perdendo força ao longo do tempo. Conceitos gastos mudaram: com a democratização artística, até a ideia de que lugar de obra de arte é apenas em museu tem ficado para trás. Inaugurado em 2012, o Museu de Street Art de Salvador (MUSAS) está aí para provar que lugar de arte também é na rua.

O lugar onde o MUSAS foi instalado, na Comunidade da Gamboa de Baixo, Solar do Unhão, é um velho conhecido dos baianos, ao lado do famoso Museu de Arte Moderna na Bahia, parada obrigatória para os amantes da arte.  Desde a sua inauguração, o MUSAS funciona como uma espécie de galeria ao ar livre, com pinturas de artistas do Brasil e do mundo. Lá, tudo vira suporte para grafites, colagens e estêncis: postes, latas de lixo, muros e até mesmo paredes inteiras das casas.

A ideia de criar um museu que abrigasse a arte de rua produzida por artistas locais surgiu em janeiro de 2012, quanto o Coletivo Nova 10 Ordem de Pintura reuniu grafiteiros para pintar os arcos da Avenida Contorno, em homenagem à Revolta do Malês. O MUSAS, criado pelos grafiteiros Bigod, Marcos Prisk, Julio Costa e pela designer de moda Thaís Muniz, teve a pintura dos muros, becos e vielas da comunidade como primeira ação coletiva.

A sede do projeto funciona em uma pequena casa na entrada da comunidade, que abriga exposições, uma biblioteca e um brechó, cujas vendas são revertidas para a manutenção do espaço.

Mais cor, por favor – Conhecida em Salvador como uma região violenta, a comunidade da Gamboa de Baixo é utilizada desde o século XIX por famílias de baixa renda. No que antes era uma pequena vila de moradores, também habitada por índios e negros escravos, vivem, atualmente, cerca de 2.500 moradores. São 140 casas estendidas diante da Baía de Todos os Santos, onde vivem atletas, artistas, comerciantes, empregados domésticos, funcionários públicos e trabalhadores de diversos segmentos.

A comunidade sofre com problemas comuns nas periferias dos centros urbanos, como falta de saneamento básico e de segurança. A instalação do Museu de Street Art, no entanto, ajudou a melhorar a autoestima coletiva, levando uma valorização até então desconhecida pelo bairro. “A arte dos meninos do MUSAS foi um presente para a comunidade, todo mundo está orgulhoso”, conta José da Silva, morador da comunidade lá há 66 anos. Além disso, José acredita que o movimento de turistas no local pode chamar a atenção das autoridades para os problemas enfrentados pela comunidade, principalmente a questão dos títulos de posse do terreno, luta antiga dos moradores.

Em uma coisa, pelo menos, todos concordam: o Museu de Street Art levou novas cores para a comunidade, delineadas por traços de spray. A descida por seus becos, vielas e escadarias é uma viagem colorida e fascinante pelo mundo do grafite e pela pacata vida local, onde crianças correm pelas ruas de pés descalços e brincam de pintar. Da nova geração, dois gêmeos de 14 anos já são promessa no mundo da arte. Os irmãos Lucas e Felipe foram descobertos pelo MUSAS, que promoveu, recentemente, o leilão de algumas telas dos garotos, pintadas em papelão. Os jovens artistas ficaram com o lucro e parte do dinheiro arrecadado foi doado para que uma moradora do bairro pudesse fazer o enxoval do seu bebê.

O grafiteiro Julio Costa, curador do MUSAS, fala com felicidade da presença do Museu na comunidade. “A ideia é trazer mais pessoas interessadas em cultura à comunidade porque o grafite é cada vez mais valorizado nas grandes cidades do mundo como arte contemporânea”, conta. 

Texto publicado originalmente na revista Soteropolitana (Unijorge).